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3º Curso de Fuzileiros - Projecto 3 da Cooperação Técnico Militar em Timor-Leste






No âmbito da Cooperação Técnico-Militar com Timor-Leste, realizou-se o 3º curso de Fuzileiros.


Cooperação Técnico-Militar. Apoio à Componente Naval das FALINTIL - Forças de Defesa de Timor-Leste
(F-FDTL).
3º Curso de Fuzileiros
 
Inserido no novo Programa-Quadro de Cooperação Técnico-Militar para 2014-2016 a Marinha, através do Corpo de Fuzileiros
aprontou e enviou uma equipa de assessores técnicos temporários (ATT), constituída por um oficial e um sargento, para no
âmbito do Projeto 3 – Apoio à Componente Naval das F-FDTL, conduzirem o 3.º Curso de Fuzileiros.
 
Assim, com aprontamento realizado, sábado, 14 de Março de 2015, aterrou no
Aeroporto Nicolau Lobato em Díli, Timor-Leste, a equipa de formadores composta pelo
2TEN FZ Maia e 1SAR FZ Neves, enviada por Portugal para dar início ao 3º Curso de
Fuzileiros Navais desta ainda recente nação.
 
O calor intenso e a humidade asfixiante (perto dos 90%) constituem desde logo o
primeiro grande choque que, aliados a 20h de voo efetivo e a 8 horas de diferença
horária para Portugal, se tornam fatores impeditivos ao descanso noturno, situação que
se prolongaria pelas primeiras duas semanas. No entanto, a adaptação social e cultural
deu-se rapidamente. O espírito de missão intrínseco à condição de Fuzileiro foi
motivação mais que suficiente para meter as “mãos à obra”.
 
 
 
 
Os testes iniciais
 
 
Fizeram-se testes a 52 candidatos para o Curso de Fuzileiros e rapidamente se verificou a dificuldade destes dentro de água.Cerca de 70% não conseguia manter-se à superfície da água durante 25m. "Nadar",um termo desconhecido até então para estes militares, era tomado até então como uma impossibilidade física. O receio (pânico nalguns casos) foi geral e muitos recorreram à sua “fé em Deus” para que os ajudasse naquela situação.
 
Depois de saltarem da ponte do navio da República Democrática de Timor-Leste
(RDTL) “Kamenassa”, a cerca de 5m de altura [1] , para seu descanso, Deus
finalmente aparecia sob a forma de um bote de apoio: medos se ultrapassavam,
orgulhos se erguiam e manifestações mútuas de camaradagem se fizeram notar.
(nota:). Este era o desafio que nos fazia avaliar a capacidade de decisão e ver o
quão estes militares estavam comprometidos com o objetivo de serem Fuzileiros.
 
 
 
A primeira Semana
 
51 Militares foram admitidos ao 3º curso de FZ em 23 de março de 2015. Com os testes físicos foram identificados vários
parâmetros que teriam de ser melhorados: a resistência física da corrida; a força nos membros superiores e inferiores e a
técnica de natação. Tudo em prol do desenvolvimento das capacidades físicas necessárias ao cumprimento das missões dos
Fuzileiros no âmbito das F-FDTL. Para tal, muitas horas foram passadas dentro de água, muitos quilómetros percorridos em
corrida, muitos pesos foram carregados. Desde as 8.00 até as 17.00 horas, com pouco mais de uma hora para almoço, a carga
letiva era mais do que suficiente para que muitos candidatos procurassem a saída mais fácil: a desistência.
 
 
Exercício Maliana
 
A ideia, embrionária em Portugal, estava muito aquém da exequibilidade após a perceção no terreno de todas as
complexidades que um exercício desta exigência teria. Na análise feita in loco
pela equipa de formação e das informações recolhidas, efetuar uma travessia de
Ataúro [2] para Díli a remar viria a tornar-se num desafio hercúleo, não só pelo
meio ambiente - alto mar - como também pela panóplia de variáveis que teriam
de estar alinhadas. O vento, a corrente, a visibilidade, as condições de material,
entre outras, seriam todas condicionantes que, apesar de todo o apoio dos meios
da componente-naval [3] disponíveis, teriam de ser favoráveis.
 
No entanto, o reconhecimento correu na perfeição. Dois botes de assalto
realizaram o percurso pretendido onde as condições climatéricas excelentes
fizeram antever uma boa prova. Faltava apenas garantir equipas de botes com otreino e a motivação adequadas ao desafio.

 

Foram feitos diversos treinos, com diferentes equipas, com diferentes líderes,ondea técnica de remada tinha de ser o mais eficiente possível por forma a garantir o sucesso da prova.
No entanto, de forma inopinada, ao invés das condições verificadas no reconhecimento, no movimento para Ataúro foram
presenciadas as mais adversas condições de mar alguma vez experienciadas por estes patrões de bote.

 
O vento encontrava-se de NE 8 a 12 knots (segundo as previsões tiradas pouco
antes de sair) com vaga de 1,5m a 2m. Relembro que o movimento foi feito em
botes de assalto Zebro III. A perseverança e a impossibilidade de adiar (a
alternativa seria mesmo cancelar face aos apoios já pedidos e ao calendário
extremamente apertado) levaram a que, apesar de estar próximo das condições
limite, a experiência de quase 3 anos na UMD tenha prevalecido na decisão de
continuar até Ataúro. A experiência fez percorrer 19 milhas em cerca de 4h20 pois
as condições não permitiam mais do que 5 nós.
 
Os botes chegaram todos já perto do anoitecer.
No dia seguinte as previsões anteviram o vento mais calmo com tendência a
aumentar depois das 13horas. Teríamos cerca de 7 horas de janela de tempo
favorável. De novo, de forma inesperada, o vento não acalmou tanto quanto o
previsto e foi necessário colocar os botes às 10 milhas em vez das 15 inicialmente
previstas. Desta forma, assim aconteceu: Os alunos, com azimute tirado a Díli remavam em mar alto com terra à vista. O
primeiro bote chegou com cerca de 4 horas e 30 minutos e último com cerca de 6 horas. A imprensa registou o momento e
mais uma vez os Fuzileiros eram notícia por todo o país através da Rádio Televisão Timor-Leste.
 
 
 
Planeamento
 
Sendo um curso apenas de praças, todo o planeamento das operações ficou a cargo da equipa de formação, já a coordenação
(até ao escalão “secção”) e a execução, essas ficaram a cargo dos alunos
candidatos a fuzileiros.
Se por um lado o armamento se aproximava do existente em forças como a dos
Estados Unidos (ex: Colt M16A2), por outro, os métodos de planeamento tinham
de ser extremamente criativos devido quer à ausência de elementos básicos
como relógios, quer de comunicações seguras e eficazes. Mas nem por isso o
sucesso destas ações foi beliscado, antes pelo contrário, a astúcia dos
executantes, motivada por um espírito de missão incutido desde o início, levava a que a determinação fosse constante.Vindo de um povo que tanto teve de fazer para conseguir sobreviver num cenário de ocupação indonésia, o instinto do combatente corre nas veias destes militares de forma natural.
 
 
 
  
Fuzileiros, no mar, em terra e onde necessário
 
Dos 51 que ingressaram no 3º Curso de Fuzileiros, 36 terminaram com sucesso e
ultrapassaram todos os desafios a que foram colocados à prova. Foram 4 meses e
meio de muito treino físico, muito tiro, muitas noites perdidas, muitos quilómetros
percorridos que totalizaram mais de 630 horas de formação. A marcha final, tal
como em Portugal, terminou finalizados os cerca de 54km (dos quais 30km com
mochila). À chegada, a satisfação de dever cumprido era visível nas lágrimas de
felicidade dos militares.
 
São 36 militares que demonstraram capacidades que os colocam na vanguarda do Corpo de Comando de Fuzileiros da Componente-Naval de Timor Leste, esta com enorme responsabilidade no âmbito da autoridade marítima nacional.
Aos formadores, fica um sentimento de enorme satisfação pelo dever cumprido. A família dos Fuzileiros ganhou mais 36 camaradas
irmãos.

 

 

A todos,
Obrigado Barak [4]
 
[1] Algum do receio dos militares prendia-se com o facto de permanecer um crocodilo com cerca de 2.5m de comprimento na mesma área onde estes nadavam. No entanto, estavam asseguradas todas as condições de segurança.
[2] A ilha de Ataúro dista cerca de 15 milhas de Díli sendo que a povoação mais próxima, Beloi fica a 19 milhas.
[3] A Componente-Naval das F-FDTL abraçou este desafio e prontamente mostrou toda a disponibilidade para colaborar no sucesso deste exercício. Para o reconhecimento e execução do exercício estiveram envolvidos uma Lancha da Classe Para-asasucesso deste exercício. Para o reconhecimento e execução do exercício estiveram envolvidos uma Lancha da Classe Para-asa e um Patrulha da classe Jaco.
[4] “Muito Obrigado” tradução livre da língua nativa Timorense: Tétum.

DAGI
12-10-2015 00:05